Houve uma época na qual as mulheres sofriam mais preconceito do que ainda sofrem. Superamos a fase de que não podiam votar, dirigir ou ocupar cargos importantes no mercado de trabalho. Superamos também algumas barreiras no que diz respeito à liberdade social e sexual.

Entretanto, há ainda quem acredite que personagens históricos devem ser, necessariamente, homens. É como se, na concepção de algumas pessoas, mulheres não fossem capazes de fazer história.

E sim, elas são! Prova disso são as grandes percussoras de certos momentos da história da arte. Algumas mulheres se tornaram conhecidas no mundo todo pela emoção e pelo significado transmitidos pela sua arte. E assim se transformaram em inspiração para outras mulheres... e também para alguns homens!

Você já pensou em perguntar para o seu professor de desenho sobre mulheres que fizeram a diferença na história da arte? Pode ter certeza que você se surpreenderia com a resposta.

E enquanto esse assunto não á abordado em sua aula de artes, nos adiantamos em falar para você sobre algumas das mulheres mais importantes da história da arte e de que forma fizeram a diferença para o mundo artístico.

Abaporu, Tarsila do Amaral e a arte brasileira

Você sabia que a pintura que marcou o início do movimento antropofágico no Brasil foi feita por uma mulher? A grande obra se chama "Abaporu" e podemos dizer que ela consagrou a artista em ascensão. Tarsila do Amaral era o seu nome e 1928 era o ano. O motivo? A artista queria presentear o então marido que estava fazendo aniversário.

O nome da obra tem origem no tupi-guarani e pode ser traduzido para o português como "homem que come gente". Foi então que tiveram a ideia de fundar um movimento a partir dela: o antropofagismo, que visava "engolir" a cultura estrangeira, no que diz respeito à arte, e transformá-la em elementos típicos do nosso país.

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Tarsila do Amaral se tornou um ícone do antropofagismo.

À essa época, Tarsila fazia uma leitura da sociedade brasileira. O quadro retrata uma pessoa com grandes pés e mãos, desproporcionais à cabeça, que impossibilita até a identificação se trata-se de homem ou mulher. A representação se refere à supervalorização do trabalho braçal e a desvalorização do intelecto.

Os elementos da paisagem como o cacto e o sol remetem ao sofrimento com a seca do Nordeste, estabelecendo uma ligação com o sofrimento desse povo, que acabava por se submeter à quaisquer condições de trabalho, já que a necessidade batia à sua porta. Tarsila também ganhou destaque no movimento modernista.

Sua carreira começou quando era muito jovem. Morando em Paris com a família, ingressou em escolas de artes e assim desenvolveu seu talento, tendo entrado em contato com o cubismo e outras vertentes.

Apesar de ter conhecido trabalhos modernistas ainda no exterior, Tarsila só se identificou com essa vertente ao voltar ao Brasil.

Abaporu faz parte da fase "pau-brasil" da artista, na qual pintava elementos de nossa terra, com destaque sempre na figura humana. As cores utilizadas eram quentes, como uma forma de referência ao nosso clima tropical.

Após uma ida à União Soviética, a artista também se descobriu socialista e passou a abordar mais temas sociais em suas pinturas. Entretanto, tal postura não foi vista com bons olhos pelo regime militar, que chegou a acusá-la de subversão.

Abaporu

Uma das maiores obras-primas da autora, o quadro foi pintado em 1928, em homenagem ao seu então marido e oferecida a ele como presente de aniversário. Ao recebê-la, ele ficou impressionado e disse que essa era a melhor obra pintada pela artista. Trata-se de um quadro a óleo, um verdadeiro clássico do modernismo brasileiro.

Nele, as mãos e pés têm um tamanho bem maior que a cabeça. A partir de figuras desproporcionais, a autora buscou relatar a supervalorização do trabalho braçal, em detrimento da inteligência. Em uma outra analogia, é possível interpretar ainda essa cabeça pequena como uma falta de pensamento crítico: o homem se submetia apenas ao que lhe era imposto.

A expressão facial triste e o grande pé representaria também a ligação do homem com a sua terra. O sol e o cacto fariam parte do cenário do homem nordestino, castigado pela seca.

Em tupi-guarani, o nome do quadro pode ser traduzido para o português como "homem que come gente". Ele teria marcado o início do Movimento Antropofágico, no qual a nossa cultura é deglutida por outras, que se incorporam a ela, trazendo um novo conceito, mais moderno e diversificado.

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O contexto da artista à época mostra bem a imersão nesse período, já que ela utiliza cores fortes e uma realidade alterada.

A obra foi pintada em 1920, época que marcava o fim da República Velha e os artistas estavam buscando um rompimento com o conservadorismo. Tarsila é um exemplo disso, com a sua crítica social através da pintura.

Tarsila conheceu o socialismo na União Soviética e tornou-se militante.

Estima-se que Abaporu seja a obra de Tarsila de maior valor no mundo e ela é considerada, por alguns historiadores da arte, como o quadro mais importante pintado no Brasil, chegando até a influenciar outros pintores, como Romero Brito.

Operários

Pintado em 1933, a intenção do quadro era mostrar pessoas de diferentes raças e etnias. Nele, estão retratados 51 operários da indústria da época, na qual as fábricas estavam em ascensão e era comum que pessoas de todas as partes do Brasil migrassem para os locais nos quais eram concentradas.

Tais trabalhadores eram sofridos e, muitas vezes, até mesmo explorados. O cansaço é representado em todos os rostos, o que mostra que os sentimentos eram os mesmos, independente da origem de cada trabalhador.

Os rostos bem juntos, quase sobrepostos representam a massificação do trabalho e a disposição em pirâmide deixa à mostra a "paisagem" de chaminés, extremamente fabril.

A obra modernista fez parte da época em que a artista relatava temas sociais em seus quadros. Alguns dos rostos são anônimos, outros são conhecidos pelo público, enquanto outros faziam parte somente do cotidiano da pintora, como o administrador da fazenda da família.

Tarsila conheceu o socialismo na União Soviética e chegou, inclusive, a ser presa devido à sua simpatia pelo regime. Quando pintou "Operários", já tinha grande engajamento e estava filiada ao partido comunista da época.

Tarsila do Amaral registrou operários comuns em uma de suas obras.

Hoje, a obra está no Palácio da Boa Vista e faz parte do acervo do Governo do Estado de São Paulo.

Anita Malfatti e o movimento modernista no Brasil

Pintora, desenhista, ilustradora, professora.... assim foi Anita Malfatti, uma importante artista paulistana que superou uma deficiência congênita na mão direita e emocionou o Brasil e o mundo com suas obras.

Sua família chegou à levá-la à Itália, ainda criança, na esperança de corrigir o problema. Sem sucesso. A solução para seu desenvolvimento foi aprender a escrever e desenhar com a mão esquerda.

O gosto pela arte foi despertado a partir do contato com a mãe. A família perdeu seu arrimo com a morte do pai de Anita e a mãe passou a desempenhar atividades acadêmicas para sustentá-la. Ela dava aulas de idiomas e artes. Foi à essa época que a menina teve seu primeiro contato com as artes plásticas.

Ainda jovem, sonhava estudar artes no exterior, o que era praticamente impossível, já que a mãe trabalhava o tempo todo para subsistência da família. Foi então que, financiada por um tio, e acompanhada de amigas, embarcou para a Alemanha, à época em que o modernismo estava em ascensão no país.

A obra de Anita Malfatti sofreu influências do modernismo.

Em Berlim, teve enfim sua oportunidade de estudar a arte que queria desenvolver e entrou em contato com famosos e influentes artistas. Passou ainda por Paris e chegou a estudar também nos Estados Unidos.

Suas obras foram expostas no Brasil, para que ela conseguisse arrecadar dinheiro para continuar estudando. Foi então que conheceu Tarsila do Amaral, juntamente com quem ganhou destaque no período modernista da arte brasileira.

Após nova temporada de estudos no exterior, Anita voltou a viver no Brasil. Sustentava-se da sua arte e dedicou-se também a dar aulas, seguindo o exemplo da mãe.

La rentrée

Pintado em 1927, La rentrée (nome em francês, que pode ser traduzido para o português como "o retorno") marca a época do pós-expressionismo. Á época, Monteiro Lobato fez uma crítica às obras de alguns pintores, inclusive da artista Anita Malfatti, na qual afirmava que ela estaria desperdiçando seu talento, já que incorporava o exagero de outros artistas às suas obras.

Embora tenha sido surpreendente para Anita, tal crítica levou a uma reflexão, se não estava realmente na hora de renovar os conceitos estéticos empregados nas pinturas.

Na obra, é possível reparar um certo exagero, mas já bem contido, representado pelas linha sinuosas. No quadro, duas mulheres aparecem dentro de uma casa humilde. A marca registrada da artista, no entanto, é mantida e pode ser observada pelo uso dos mesmos tons de verde e amarela que eram empregados há 10 anos da data.

Também trata-se de um período no qual a artista se dedicava mais a pinturas em espaços internos, o que indicaria uma conexão com o fauvismo e a pintura primitiva. Tal questão mostra ainda a flexibilidade da artista, que estaria disposta a se reinventar e acompanhar a evolução com a sua obra.

Como se pode ver, o Brasil também tem suas obras que se tornaram famosas em todo o país e até mesmo no mundo. Quando você faz aulas de desenho, é importante estudar também essas questões históricas, já que, além de servir de inspiração, tais obras também ajudam a conhecer os principais movimentos artísticos e sua relação com o contexto social no qual vivíamos em cada época.

Maiores pintoras do Brasil: Djanira

Nascida em Avaré, interior do Estado de São Paulo, Djanira teve o primeiro contato com seu talento artístico em uma situação nada agradável. Estava internada em um sanatório para tratar-se de um vírus que havia adquirido e fez seu primeiro desenho: Cristo no calvário.

Uma vez curada, passou a viver de uma pequena pensão que abrira. Entretanto, sempre soube que seu talento era a arte, não deixando jamais de frequentar cursos e workshops.

Na década de 40, já pintava alguns quadros, que se caracterizavam por uma aparência sombria e geométrica. Na década seguinte, entretanto, passou a adotar cores mais vibrantes.

Pintou os indígenas maranhenses, a festa do Divino e diversos outros temas que remetem à nossa cultura. Além da pintura, a artista se dedicou também à xilogravura, ou gravação em metais. Foi essa técnica que ela utilizou para pintar os azulejos que decoram, até hoje, as paredes da capela do túnel Santa Bárbara, no Rio de Janeiro.

A xilogravura fez parte da obra da grande artista Djanira.

Sua morte, aos 65 anos, causou comoção geral em sua cidade natal. Anos mais tarde, foi fundado o Centro Cultural Djanira da Mota, em sua homenagem. Atualmente, o espaço abriga também uma biblioteca e sua intenção é manter viva a lembrança de uma artista que pode ser considerada o maior talento de Avaré de todos os tempos.

Djanira levou as cores do Brasil para o mundo e assim conquistou e inspirou gerações inteiras. Para você ter uma ideia, ela foi homenageada até mesmo por Jorge Amado e Paulo Mendes Campos.  Em 2008, foi inaugurado ainda um memorial, com objetos pessoais e parte da obra da artista.

A arte contemporânea de Lygia Pape

Em suas aulas de desenho, o tema neoconcretismo já foi abordado? Trata-se de um movimento que, contrário aos princípios do Concretismo, acredita que a arte tem características subjetivas e expressivas, e que o homem, ao se aproximar para admirá-la, acaba se tornando parte dela.

Sua arte, no início da carreira, trazia características contemporâneas e abstracionistas, tendo aderido ao movimento neoconcreto quando do seu surgimento, na década de 50. A trajetória da artista também foi marcada por ironias, humor negro e uma crítica à situação política que vivíamos.

Em 1960, Pape e artistas como Hélio Oiticica, Lygia Clark, Ferreira Gullar, Reynaldo Jardim e Franz Weissmann romperam com o concretismo e publicaram no Jornal do Brasil o Manifesto Neoconcreto, marco inicial do neoconcretismo. No mesmo ano, participou da 5ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo. Em 1959 tomou parte da 1ª Exposição Neoconcreta. Entre 1959 e 1961 Lygia realizou a trilogia Livro da CriaçãoLivro da Arquitetura e Livro do Tempo. A partir de 1960, iniciou uma série de projetos de esculturas em madeira. Em 1960, foi uma das convidadas para a célebre 1ª Exposição Internacional de Arte Concreta, em Zurique, na Suíça.

Alguns de seus trabalhos envolvem formigas saúvas, baratas vivas e até amostras de fios de cabelo das diversas etnias que compõem o povo brasileiro. Sua intenção, entretanto, era levar os expectadores a uma reflexão.

Quem vê suas obras, certamente não se sentirá pronto para consumí-las rapidamente e seguir em frente. Ela leva a alguns minutos de reflexão mais profunda. Está comprovada aí a tese do neoconstrutivismo.

Foi então que participou de uma bienal e algumas exposições internacionais. Tóquio, Estocolmo, Munique, Veneza e Chicago são apenas alguns exemplos de cidades que já foram cenário de exposição de suas obras.

A arte de Lygia chamava a atenção por seu realismo.

Até hoje, seu trabalho faz parte do acervo do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo. Também ganhou destaque no cinema, trabalhando em divulgação e cartazes de filmes. Até mesmo as embalagens dos biscoitos Piraquê foram desenhadas pela artista.

A marca ficou famosa devido às figuras geométricas que eram associadas a ela, que indiretamente remetiam à obra da artista. Tal embalagem se tornou identidade visual da marca, no Brasil e no mundo. Ela inclusive, foi a criadora da embalagem cilíndrica para itens alimentares, que também se tornou padrão internacional.

Lygia faleceu aos 77 anos, vítima de uma infecção generalizada. Deixou marido e duas filhas. Foi cremada e, atendendo a uma vontade da artista relatada em vida, não teve velório. Sua missa de sétimo dia também foi cantada no Mosteiro de São Bento.

Viu só como as mulheres também fizeram toda a diferença na história da arte? Se você por um momento pensou em desistir das aulas de desenho, por acreditar que não eram para você, pare e pense um pouco.

Além de inspirarem o mundo com suas obras, essas artistas também devem ser tomadas como exemplo de coragem. Mesmo contradizendo a toda a uma sociedade, lutaram para mostrar seu talento ao mundo.

E ainda que o seu sonho não seja se tornar famosa como elas, certamente estudar arte fará de você alguém mais sensível, até mesmo do ponto de vista de uma analogia histórica.

Rosina Becker do Valle

Rosina é o que chamamos de uma pintora naif, termo àqueles que de forma autodidata encontraram um jeito único e pessoal de se expressar artisticamente. Desde que passou a pintar por lazer em 1955, já esteve em mais de 110 exposições não só no Brasil como internacionalmente. Foi uma das alunas na escola do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e teve como principal marca de seu trabalho o folclore e mata brasileiros. Hoje é possível encontrar suas obras no Museu de Arte Naif da Ilha de França, Museu de Arte Moderna de Hamburgo e Museu de Arte Moderna de Buenos Aires.

Haydéa Santiago

Haydéa foi uma das pintoras brasileiras cujo lema era se opor “à pintura de ateliê e às convenções acadêmicas” no início do século XX. Junto com seu marido, o também pintor Manoel Santiago, definiam-se enquanto discípulos de Eliseu Visconti, pintor ítalo-brasileiro tido como o mais expressivo representante da pintura impressionista no Brasil, de quem foram alunos. Haydéa transita entre gêneros variados, com pinceladas livres, da natureza morta às representações do cotidiano, como feiras e praças públicas. Sua formação esteve entre Rio de Janeiro e Paris, sendo premiada em ambos os países.

As pinturas de Haydéa possuem traços impressionistas, tais como ausência de contornos nítidos devido à composição de pinceladas justapostas. Os temas de seus quadros vão de naturezas-mortas à cenas urbanas.

Segundo a própria artista, ela pinta ao ar livre como forma de oposição à pintura de ateliê e às convenções acadêmicas, pois para ela esse tipo de pintura permite uma arte mais pessoal.

José Roberto Teixeira Leite no Dicionário, crítico da pintura no Brasil, escreveu a respeito de Haydéa: "Praticou a paisagem e a figura, a natureza-morta e o gênero, destacando-se por uma execução espontânea, um colorido leve e alegre e um desenho ágil, com forte influência de Visconti e tardos resquícios impressionistas."

Teve influência nas mudanças radicais acontecidas no contexto artístico brasileiro entre o século XIX e XX.

Abigail de Andrade

Grandes pintoras brasileiras
Estrada do Mundo Novo com Pão de Açúcar ao fundo (1888), de Abigail de Andrade.

Abigail de Andrade foi uma pintora nascida em Vassouras, no interior do Rio de Janeiro, ainda em 1864. Começou a estudar desenho no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro apenas um ano após o decreto que passou a permitir a frequência feminina na escola. Por isso, pouco se sabe de seu trabalho ainda hoje. É reconhecida, porém, como a a primeira mulher premiada Exposição Geral de Belas Artes, em sua 26ª edição ocorrida em 1884. Seu reconhecimento representou o início de uma visibilidade institucional para as mulheres artistas no Brasil do fim do século XIX. Dentre as suas inspirações estão principalmente as cenas do cotidiano fluminense.

É diminuto o número de trabalhos atualmente conhecidos da pintora Abigail. Deve ter produzido muito pouco, sendo que seus trabalhos estão datados entre os anos de 1881 a 1889. Certamente não pintou mais do que cinquenta quadros, numa avaliação otimista e, como se sabe da existência de um número muito menor do que esta estimativa, pode-se considerar que outras obras estão perdidas ou incógnitas na casa de seus proprietários ou de pequenos colecionadores.

Segundo o Blogbemglo, tais pintoras brasileiras são algumas das que construíram a cena de mulheres artistas no Brasil, e cada uma à sua maneira abriu caminho para todas as artistas que hoje podem livremente produzir, expor e serem reconhecidas por isso. Que sempre lembremos das mulheres que contribuíram de forma igual aos homens para o fortalecimento e reconhecimento da arte brasileira mundo a fora!

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Marcia

Jornalista. Professora. Tradutora. Bailarina. Mãe. Mulher. Dedicada às minhas lutas diárias. Em constante transformação. Escrevo para vencer as inquietações e incertezas da vida.