Uma pergunta clássica de alguns brasileiros é: "tem furacão no Brasil?". E por incrível que pareça, a resposta para essa pergunta é sim! O Brasil pode registrar e já registrou um furacão em sua história, embora seja um fenômeno considerado extremamente raro no Atlântico Sul. O caso mais marcante da história brasileira aconteceu em 2004, quando o Furacão Catarina atingiu o litoral de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Muito embora a costa brasileira seja historicamente protegida por fatores climáticos e geográficos que impedem a formação de tempestades severas com grande frequência, as mudanças climáticas globais acendem um alerta para a possibilidade de novos eventos climáticos extremos no futuro.
Essa ideia de que o Brasil está imune a grandes desastres meteorológicos faz parte da nossa cultura. Afinal, crescemos ouvindo que somos um país abençoado, que não tem furacão no Brasil, terremoto ou vulcões ativos. Vemos tempestades devastadoras no caribe ou nos Estados Unidos e achamos algo muito distante da nossa realidade. Contudo, a ciência climática nos mostra que a atmosfera é completamente dinâmica e que nenhum ponto do nosso planeta está completamente isolado de eventos climáticos extremos. Investigar a ocorrência de um furacão no Brasil nos ajuda a compreender as forças que regem o clima do nosso litoral e a importância do monitoramento meteorológico avançado para evitar desastres.
Se você quer entender como esses sistemas se formam, qual a verdadeira diferença entre os nomes dados a essas tempestades e como o Sul do país viveu uma experiência climática histórica, continue a leitura. Vamos desvendar os segredos dos ciclones que cruzam os nossos mares!
O que é um furacão? Definição e nomenclaturas
Para darmos início a nossa jornada meteorológica sobre esse fenômeno climático extremo, precisamos primeiro esclarecer uma confusão conceitual comum: o que é um furacão? Cientificamente falando, um furacão nada mais é do que um ciclone tropical de grande intensidade. Trata-se de um sistema rotativo de baixa pressão atmosférica que se forma sobre águas oceânicas quentes, caracterizado por ventos sustentados que podem ultrapassar os 119 km/h, trovoadas organizadas e chuvas torrenciais.
A confusão de conceitos muitas vezes é em decorrência dos diferentes nomes utilizados ao redor do mundo para descrever exatamente o mesmo fenômeno físico. A escolha do termo utilizado para descrever um ciclone tropical depende exclusivamente da região geográfica onde a tempestade ganha força. Vamos explicar abaixo essa diferença:
🌪️Furacão: termo usado quando o ciclone tropical se forma no Oceano Atlântico Norte, no Mar do Caribe, no Golfo do México ou no norte do Oceano Pacífico Oriental.
🌪️Tufão: é exatamente a mesma estrutura de tempestade, mas recebe esse nome quando ocorre no Oceano Pacífico Ocidental (em países como Japão, Filipinas e China).
🌪️Ciclones Tropicais Severos: termo genérico usado mundialmente, mas que vira o nome oficial das grandes tempestades no Oceano Índico e no Pacífico Sul (próximo à Austrália).
Muitas pessoas confundem ainda esses sistemas de furacão, tufão ou ciclone tropical com o tornado. No entanto, a escala de tamanho é completamente diferente. Enquanto um furacão é um monstro gigante que pode medir de 300 a 800 km de diâmetro, durando dias e dias em alto mar, o tornado é um funil de vento estreito, que raramente passa dos 2 km de largura, que nasce de uma única nuvem de tempestade em terra firme, durando apenas alguns minutos, embora tenha ventos muito velozes.

Na imagem acima, podemos observar a impressionante estrutura em espiral de uma tempestade tropical vista do espaço. É possível identificar claramente o "olho" do furacão, a região central de calmaria circundada pelas nuvens mais violentas do sistema.
Conheça a história dos vulcões no Brasil no nosso artigo completo sobre o tema.
Diferença entre ciclone e furacão: o caso do Atlântico Sul
Para entender um pouco mais sobre o motivo de se falar furacão no Brasil ser ainda um grande paradigma, precisamos entender melhor a diferença entre ciclone e furacão no contexto do nosso litoral. Ciclones ocorrem rotineiramente no Sul e no Sudeste do Brasil, mas a imensa maioria deles são da categoria Ciclones Extratropicais.
Os ciclones extratropicais são alimentados pelo choque térmico entre a massa de ar frio vindo da Antártica e uma massa de ar quente. Eles se formam bem longe da costa e, embora provoquem ventos fortes e ressacas no mar, não possuem a estrutura destrutiva de um furacão. Já o furacão (ciclone tropical), funciona como uma máquina térmica movida exclusivamente pelo calor latente liberado pela evaporação de águas oceânicas muito quentes.
Mas por que, então, que os furacões tropicais são tão raros no Brasil em comparação com o Hemisfério Norte? O Atlântico Sul possui duas barreiras naturais poderosas que agem como escudos protetores:
🌊Temperaturas oceânicas mais baixas: para que um furacão se desenvolva e se mantenha vivo, a água do mar precisa estar a uma temperatura sustentada de, no mínimo, 26,5°C a 27°C até uma profundidade considerável. No litoral sul do Brasil, as correntes marítimas frias vindas do sul mantêm as águas habitualmente abaixo desse limite na maior parte do ano.
🎐Forte cisalhamento do vento: o cisalhamento é a diferença na velocidade e na direção do vento em diferentes altitudes da atmosfera. No Atlântico Sul, os ventos superiores costumam soprar em direções opostas aos ventos de superfície com muita força. Esse vento forte "corta" o topo das nuvens em formação, desestruturando o sistema antes que ele consiga se organizar e virar uma tempestade circular madura.
Outro fenômeno muito incomum são as tsunamis no Brasil. Mas sabia que temos um caso de tsunami registrado em nosso país?
Uma quebra de paradigma: o caso do Furacão Catarina
Em março de 2004, o improvável aconteceu. O Brasil presenciou o seu primeiro furacão. O escudo climático do Atlântico Sul e o Brasil testemunhou o nascimento do primeiro e até hoje único, furacão no Brasil documentado por satélites no Hemisfério Sul Ocidental, o Furacão Catarina.
O sistema começou discretamente como um ciclone extratropical comum na costa do Rio Grande do Sul. No entanto, ao se deslocar sobre uma faixa de águas atipicamente quentes para a época e encontrar uma zona raríssima de calmaria dos ventos superiores (baixo cisalhamento), o sistema começou então a mudar de natureza. Ele estacionou, começou a extrair calor do oceano e passou por uma transição tropical, desenvolvendo um olho perfeito e ventos constantes de aproximadamente 130 km/h, o que o classificou como um furacão de Categoria 2 na Escala de Saffir Simpson.
Na noite de 27 para 28 de março de 2004, o Furacão Catarina tocou o solo na divisa entre o sul de Santa Catarina e o norte do Rio Grande do Sul. O impacto foi severo: o vento destelhou mais de 30 mil casas, colapsou plantações de banana e arroz, destruiu redes elétricas e, infelizmente, causou a morte de pelo menos 11 pessoas, além de deixar dezenas de feridos. Foi o evento que mudou para sempre a forma como o Brasil enxerga a defesa civil e o monitoramento do clima.
Um outro paradigma nacional é que estamos totalmente livres de terremotos no Brasil. Mas sabia que acontecem tremores de terra constantemente no nosso território brasileiro?
Possibilidade de novos furacões no Brasil: o que esperar?
A grande pergunta depois da passagem do Catarina pelo Brasil que é feita pelos meteorologistas e cientistas das universidades do nosso país é se esse foi um evento isolado e fora da curva ou o prenúncio de uma nova era meteorológica para o nosso país. Como o avanço do aquecimento global, as temperaturas médias da superfície dos oceanos estão subindo de forma consistente.

Se essa barreira de temperatura da água começar a falhar com maior frequência no Atlântico Sul, o potencial para que os ciclones extratropicais ou subtropicais sofram transições tropicais aumenta de forma significativa.
Nos últimos anos, a Marinha do Brasil já passou a batizar formalmente tempestades subtropicais que se formaram na nossa costa, como Anita em 2010, Iba em 2019 e Mani em 2020. Embora nenhuma delas tenha atingido a força de vento sustentado necessária para ser denominada como um furacão no Brasil, elas demonstram que o nosso mar está mais agitado e enérgico do que no século passado.
Veja também os impactos do aquecimento global na formação de ondas de calor no Brasil.
Portanto, o risco de um novo furacão no Brasil no futuro não pode ser descartado completamente pela ciência. A atmosfera terrestre está retendo mais energia, e a governança pública precisa investir continuamente em supercomputadores de previsão do tempo, radares meteorológicos costeiros e planos de evacuação eficientes para as populações que vivem nas faixas litorâneas vulneráveis.
Agora já sabemos o que é um furacão, um tufão, um tornado, a diferença entre ciclone e furacão e que sim, é possível que o tenhamos um furacão no Brasil.
Referências:
- Tan, Ken. National Geographic Brasil. (2026) Tufão, furacão, ciclone: qual é a diferença? Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/meio-ambiente/tufao-furacao-ciclone-qual-e-diferenca. Acesso realizado em 24 de julho de 2026.
- O GLOBO — Flórida (2025). Tem furacão no Brasil? Entenda por que fenômeno é raro no país. Disponível em: https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2025/11/08/tem-furacao-no-brasil-entenda-por-que-fenomeno-e-raro-no-pais.ghtml. Acesso realizado em 24 de julho de 2026.
- Rosendo, Vitória (2026). Único furacão registrado no Brasil deixou mortos e 26 mil desabrigados; relembre o caso. Disponível em https://www.canalrural.com.br/network/unico-furacao-registrado-no-brasil-deixou-mortos-e-milhares-de-desabrigados-relembre-o-caso/. Acesso realizado em 24 de julho de 2026.
- Munhóz, Fábio (2024). Furacão no Brasil: há 20 anos, Região Sul foi atingida por fenômeno; relembre. Disponível em https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/furacao-no-brasil-ha-20-anos-regiao-sul-foi-atingida-por-fenomeno-relembre/. Acesso realizado em 24 de julho de 2026.
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