A deficiência intelectual é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por limitações no funcionamento intelectual e nas habilidades adaptativas, ou seja, nas capacidades necessárias para lidar com as atividades do dia a dia, como comunicação, aprendizagem, autonomia, interação social e resolução de problemas. 

Apesar de ser um tema cada vez mais discutido, ainda existem muitos mitos e informações equivocadas que geram preconceito e atrasam o diagnóstico ou o acesso aos serviços de apoio.

Criança tampando o rosto com vergonha
O autismo é uma condição do neurodesenvolvimento que influencia a comunicação, a interação social e o comportamento, manifestando-se de forma única em cada pessoa. Fonte de imagem: Freepik

Um dos principais equívocos é acreditar que qualquer dificuldade escolar, atraso na aprendizagem ou baixo desempenho acadêmico significa deficiência intelectual.

Na realidade, diversas condições podem afetar o desenvolvimento de uma criança, como dificuldades específicas de aprendizagem, transtornos do neurodesenvolvimento, problemas emocionais, falta de estímulos ou questões sociais, sem que exista deficiência intelectual.

Atualmente, a compreensão sobre a deficiência intelectual vai além da simples avaliação do quociente de inteligência (QI). O diagnóstico considera também a capacidade da pessoa de desempenhar atividades cotidianas com independência, adaptar-se ao ambiente e participar da vida em sociedade. 

Neste artigo, vamos explicar melhor sobre o que é deficiência intelectual, conhecerá suas principais causas, sinais, formas de diagnóstico, níveis de gravidade, possibilidades de intervenção, além dos direitos garantidos às pessoas com deficiência intelectual no Brasil.

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O que é deficiência intelectual?

A deficiência intelectual é definida como um transtorno do neurodesenvolvimento que se manifesta durante o período de desenvolvimento, geralmente antes dos 18 anos de idade, envolvendo limitações tanto no funcionamento intelectual quanto no comportamento adaptativo.

O funcionamento intelectual refere-se a habilidades como:

  • raciocínio lógico;
  • resolução de problemas;
  • memória;
  • planejamento;
  • aprendizagem;
  • compreensão de conceitos;
  • pensamento abstrato.

O comportamento adaptativo envolve competências utilizadas no cotidiano, incluindo:

  • comunicação;
  • autocuidado;
  • habilidades sociais;
  • autonomia;
  • utilização de recursos da comunidade;
  • desempenho escolar;
  • organização da rotina;
  • responsabilidade pessoal.

Essas limitações variam bastante de uma pessoa para outra. Algumas necessitam apenas de apoio pontual em determinadas atividades, enquanto outras podem precisar de acompanhamento contínuo ao longo da vida.

É preciso destacar que deficiência intelectual não significa ausência de capacidade de aprendizagem. Pessoas com deficiência intelectual aprendem, desenvolvem habilidades e conquistam autonomia quando recebem estímulos adequados e apoio compatível com suas necessidades.

Retardo mental

Termo anteriormente utilizado para se referir à condição hoje conhecida como deficiência intelectual, caracterizada por limitações no funcionamento intelectual e nas habilidades adaptativas.

 Atualmente, o termo "retardo mental" é considerado inadequado e foi substituído por "deficiência intelectual" em contextos médicos, educacionais e legais.

Déficit cognitivo

Déficit cognitivo refere-se à redução ou comprometimento de uma ou mais funções cognitivas, como memória, atenção, linguagem, raciocínio ou funções executivas. 

Pode ser temporário ou permanente e ter diferentes causas, como lesões cerebrais, doenças neurológicas ou envelhecimento.

Deficiência cognitiva

Expressão ampla utilizada para descrever limitações significativas nas funções cognitivas que afetam a aprendizagem, a comunicação, a resolução de problemas e a autonomia. 

Dependendo do contexto, deficiência cognitiva engloba diferentes condições, incluindo a deficiência intelectual e transtornos neurológicos.

Deficiência psicossocial

Condição decorrente de transtornos mentais persistentes que, em interação com barreiras sociais, podem limitar a participação plena e efetiva da pessoa na sociedade em igualdade de condições com as demais. 

O conceito é adotado pela Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e pela legislação brasileira.

Deficiência intelectual, deficiência cognitiva e deficiência psicossocial: existe diferença?

A deficiência intelectual é um diagnóstico específico relacionado ao desenvolvimento intelectual e ao funcionamento adaptativo.

Enquanto isso, a expressão deficiência cognitiva é mais ampla e costuma ser utilizada para descrever dificuldades relacionadas às funções cognitivas, como memória, atenção, linguagem ou raciocínio. Ela pode ocorrer em diferentes situações, como traumatismos cranianos, demências, doenças neurológicas e algumas condições psiquiátricas, não sendo necessariamente equivalente à deficiência intelectual.

Por sua vez, a deficiência psicossocial refere-se às limitações decorrentes de transtornos mentais persistentes que podem dificultar a participação plena da pessoa na sociedade. Nesse caso, as dificuldades estão relacionadas principalmente às consequências sociais e funcionais de condições como esquizofrenia, transtorno bipolar grave ou outros transtornos mentais de longa duração.

Embora possam compartilhar algumas dificuldades funcionais, essas condições possuem causas, diagnósticos e formas de acompanhamento diferentes.

Causas e fatores de risco para deficiência intelectual

A deficiência intelectual pode ter diversas origens. Em muitos casos, a causa é identificada, enquanto em outros permanece desconhecida mesmo após investigação médica.

Assim sendo, entre as principais causas estão:

Alterações genéticas

Algumas síndromes genéticas estão associadas à deficiência intelectual, como:

  1. Síndrome de Down;
  2. Síndrome do X Frágil;
  3. Síndrome de Williams;
  4. Síndrome de Rett, entre outras.

Complicações durante a gestação

Alguns fatores interferem no desenvolvimento cerebral do bebê, como:

  • infecções durante a gravidez;
  • exposição ao álcool e outras drogas;
  • desnutrição materna grave;
  • exposição a substâncias tóxicas;
  • doenças metabólicas não controladas.

Problemas no parto

A falta de oxigenação cerebral prolongada, prematuridade extrema ou complicações graves durante o nascimento também aumentam o risco.

Doenças adquiridas na infância

Infecções do sistema nervoso central, traumatismos cranianos graves, intoxicações e algumas doenças metabólicas comprometem o desenvolvimento cognitivo.

Fatores ambientais

Ambientes com extrema privação de estímulos, desnutrição severa ou ausência prolongada de cuidados também afetam o desenvolvimento infantil, embora normalmente não sejam causas isoladas da deficiência intelectual.

Em muitos indivíduos, diferentes fatores atuam simultaneamente.

Sinais e sintomas da deficiência intelectual

Os sinais variam conforme o grau de comprometimento e a idade da pessoa. Deste modo, na primeira infância surgem atrasos no desenvolvimento, como:

  • demora para sentar, engatinhar ou andar;
  • atraso na fala;
  • dificuldade para compreender comandos simples;
  • atraso na aquisição da linguagem.
Criança correndo enquanto brinca
A deficiência intelectual na infância é caracterizada por limitações no desenvolvimento intelectual e nas habilidades adaptativas, tornando essencial o diagnóstico precoce e o acompanhamento adequado para favorecer a aprendizagem e a autonomia. Fonte da imagem: Freepik

Durante a idade escolar, alguns sinais incluem:

  • dificuldade persistente para aprender conteúdos básicos;
  • necessidade de maior repetição para consolidar conhecimentos;
  • dificuldade em resolver problemas do cotidiano;
  • limitações na compreensão de conceitos abstratos;
  • atraso no desenvolvimento da autonomia.

Também ocorrem dificuldades relacionadas às habilidades sociais, como compreender regras, interpretar situações sociais ou organizar atividades diárias. É preciso lembrar que esses sinais, isoladamente, não confirmam deficiência intelectual.

Nem toda dificuldade de aprendizagem significa deficiência intelectual

Essa é uma das informações mais importantes sobre o tema. Uma criança pode apresentar dificuldades escolares por inúmeros motivos, sem possuir deficiência intelectual. Por isso, podemos considerar algumas possibilidades:

  • dislexia;
  • discalculia;
  • Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH);
  • Transtorno do Espectro Autista (TEA);
  • ansiedade;
  • depressão;
  • problemas emocionais;
  • déficit auditivo ou visual;
  • mudanças frequentes de escola;
  • ausência de estímulos educacionais.

Da mesma forma, um baixo desempenho em uma disciplina específica não significa necessariamente comprometimento intelectual.

Por isso, nenhuma criança deve ser rotulada apenas com base em notas escolares ou dificuldades observadas em sala de aula. A avaliação precisa ser realizada por profissionais qualificados, utilizando critérios científicos.

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Formas de diagnóstico da deficiência intelectual

O diagnóstico da deficiência intelectual é realizado por uma equipe multiprofissional, podendo envolver médicos, psicólogos, neuropsicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e pedagogos.

Deste modo, a avaliação considera três aspectos principais.

Funcionamento intelectual

São utilizados testes padronizados de inteligência, como escalas de QI, sempre aplicadas por profissionais habilitados.

Funcionamento adaptativo

Além do desempenho intelectual, avalia-se como a pessoa realiza atividades do cotidiano.

São observadas habilidades relacionadas à comunicação, interação social, autocuidado, autonomia e participação na comunidade.

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Início durante o desenvolvimento

Os sinais precisam ter surgido durante o período do desenvolvimento infantil, diferenciando a deficiência intelectual de perdas cognitivas adquiridas na vida adulta, como ocorre em algumas demências.

Nenhum exame de sangue ou exame de imagem confirma isoladamente o diagnóstico. Em alguns casos, exames genéticos e neurológicos auxiliam na identificação da causa.

Classificação e níveis de gravidade da deficiência intelectual

Atualmente, a classificação da deficiência intelectual prioriza o nível de apoio necessário para o funcionamento diário, e não apenas o resultado obtido em testes de QI.

De forma resumida, podemos considerar:

Deficiência intelectual leve

A pessoa consegue desenvolver boa autonomia com apoio adequado.

Frequenta escolas inclusivas, trabalha, estabelece relações sociais e vive de forma relativamente independente.

Criança autista brincando na chuva com deficiência intelectual
Os sinais de autismo em crianças podem incluir diferenças na comunicação, na interação social e no comportamento, sendo a identificação precoce fundamental para iniciar intervenções e promover o desenvolvimento infantil. Fonte da imagem: Freepik

Deficiência intelectual moderada

Necessita de apoio mais frequente para aprendizagem e atividades cotidianas. Com intervenções adequadas, desenvolve diversas habilidades funcionais e participar ativamente da comunidade.

Deficiência intelectual grave

As limitações adaptativas são mais expressivas. Normalmente há necessidade de acompanhamento constante em diversas atividades da vida diária.

Deficiência intelectual profunda

Caracteriza-se por comprometimentos importantes tanto intelectuais quanto adaptativos. A pessoa geralmente necessita de apoio permanente e assistência contínua.

É preciso destacar que essas classificações servem apenas como referência clínica. Cada indivíduo possui capacidades, interesses e possibilidades próprias de desenvolvimento.

Existe prevenção ou tratamento?

Não existe uma cura para a deficiência intelectual, mas há inúmeras intervenções capazes de melhorar a qualidade de vida, a autonomia e a inclusão social. Quanto mais precoce ocorre a identificação, maiores costumam ser os benefícios das intervenções.

Os principais recursos que podem ser adotados são:

  • estimulação precoce;
  • acompanhamento psicológico;
  • terapia ocupacional;
  • fonoaudiologia;
  • fisioterapia, quando necessária;
  • acompanhamento pedagógico especializado;
  • educação inclusiva;
  • apoio familiar.

Em relação à prevenção, algumas medidas reduzem o risco em determinados casos, como:

  • acompanhamento adequado da gestação;
  • vacinação;
  • controle de doenças maternas;
  • evitar consumo de álcool e drogas durante a gravidez;
  • realização do teste do pezinho;
  • acompanhamento do desenvolvimento infantil;
  • tratamento precoce de doenças metabólicas quando identificadas.

Inclusão e direitos das pessoas com deficiência intelectual no Brasil

No Brasil, pessoas com deficiência intelectual possuem diversos direitos assegurados pela legislação.

A Constituição Federal assegura igualdade de direitos, acesso à educação, saúde, trabalho e participação social.

A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência) fortaleceu a proteção jurídica, estabelecendo medidas para eliminar barreiras e promover a inclusão. Entre os principais direitos estão:

  • acesso à educação inclusiva;
  • atendimento educacional especializado quando necessário;
  • acessibilidade;
  • atendimento prioritário em diversos serviços;
  • inclusão no mercado de trabalho por meio da Lei de Cotas;
  • acesso à saúde integral;
  • proteção contra discriminação.

Além da legislação, políticas públicas ampliam o acesso à reabilitação, à assistência social e aos serviços especializados. Ainda assim, os desafios permanecem, principalmente relacionados ao preconceito, à falta de informação e às barreiras para inclusão escolar e profissional.

O que é CID F70?

O CID F70 é um código da Classificação Internacional de Doenças (CID-10) utilizado para identificar a deficiência intelectual leve. Essa condição é caracterizada por limitações no funcionamento intelectual e nas habilidades adaptativas, como comunicação, aprendizagem, autonomia e interação social, com impacto geralmente leve no dia a dia.

Pessoas com CID F70 costumam conseguir desenvolver habilidades acadêmicas básicas, trabalhar, manter relacionamentos e viver de forma relativamente independente, especialmente quando recebem acompanhamento educacional, apoio familiar e intervenções adequadas desde a infância.

beenhere
Informação para combater preconceitos

Durante muitos anos, pessoas com deficiência intelectual foram definidas apenas pelas suas limitações. Hoje, sabe-se que essa visão é inadequada e não representa a realidade.
Cada indivíduo possui potencialidades, interesses, talentos e possibilidades de desenvolvimento. Com apoio adequado, educação inclusiva e oportunidades, muitas pessoas com deficiência intelectual estudam, trabalham, participam da comunidade e desenvolvem uma vida autônoma dentro de suas possibilidades.

Hoje em dia, é preciso reconhecer que deficiência intelectual não define a identidade de uma pessoa. O acesso precoce ao diagnóstico, às intervenções multidisciplinares e aos direitos garantidos por lei permite ampliar a participação social, reduzir desigualdades e favorecer uma sociedade verdadeiramente inclusiva, em que as diferenças sejam respeitadas e valorizadas.

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Referências

  1. AMERICAN ASSOCIATION ON INTELLECTUAL AND DEVELOPMENTAL DISABILITIES (AAIDD). Intellectual disability: definition, diagnosis, classification, and systems of supports. 12. ed. Washington, DC: AAIDD, 2021.
  2. AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR. Porto Alegre: Artmed, 2023.
  3. BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Diário Oficial da União: Brasília, DF, 7 jul. 2015.
  4. BRASIL. Ministério da Educação. Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Brasília, DF: MEC, 2008.
  5. ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Nova York: ONU, 2006.
  6. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10). 10. rev. São Paulo: EDUSP, 1997.
  7. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Classificação Internacional de Doenças – 11ª Revisão (CID-11). Genebra: OMS, 2022.
  8. SCHALOCK, Robert L. et al. Intellectual disability: definition, classification, and systems of supports. 11. ed. Washington, DC: AAIDD, 2010.
  9. TASSÉ, Marc J.; SCHALOCK, Robert L.; BALBONI, Giulia. Theoretical and conceptual issues in the measurement of adaptive behavior. New York: Academic Press, 2016.
  10. UNESCO. Diretrizes para a inclusão: garantindo acesso à educação para todos. Paris: UNESCO, 2009.

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Daiane Souza

Daiane Souza

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